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Fahrenheit 451 na Era do Silício

O dia em que o Claude confessou a destruição de milhões de livros

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Fahrenheit 451 na Era do Silício

O dia em que o Claude confessou a destruição de milhões de livros

Se você me acompanha aqui no blog há algum tempo, sabe que eu não sou de comprar teorias da conspiração baratas. No ecossistema de tecnologia e cripto, o que mais existe é gente usando chapéu de alumínio, rezando para pneu e criando pânico por qualquer clique. Por isso, quando me deparei com um Reels no Instagram sugerindo que a Anthropic mantinha galpões secretos cheios de livros físicos que eram escaneados e depois destruídos para treinar o Claude, minha primeira reação foi o ceticismo. "Não é possível", pensei. Afinal, estamos em pleno ano de 2026. Há quantas eras nós digitalizamos documentos e preservamos acervos sem precisar queimar o passado?

Mas a parada me tocou. Decidi abrir uma live e investigar o assunto de braços dados com o chat (assista aos cortes no YouTube — Morning Crypto). O que nós descobrimos ao vivo não foi apenas um escândalo ético sem precedentes na indústria de Inteligência Artificial; foi um vislumbre assustador de como as Big Techs estão prontas para passar o trator por cima da nossa herança cultural e, pior, como elas programam suas criações para mentir na nossa cara.

Aperte os cintos, porque a história do Project Panama é um soco no estômago.


O Boato: Galpões secretos e o "Escaneamento Destrutivo"

O rumor que circulava nas redes parecia o roteiro de uma distopia barata: a Anthropic estaria comprando livros que nunca foram para a internet, que nunca foram digitalizados, trancando-os em galpões, passando a lâmina nas encadernações para alimentar o Claude e, em seguida, destruindo os originais. O objetivo dessa queima de arquivo moderna? Garantir que nenhuma outra empresa de IA (como OpenAI, Google ou a xAI do Grok) tivesse acesso à mesma base de dados limpa, mantendo a exclusividade da informação.

Parecia absurdo demais para ser verdade. Mas, conforme o chat começou a cavar as fontes oficiais, a cortina de fumaça evaporou. Caímos direto em uma matéria bombástica da Ars Technica e em documentos judiciais revelados na justiça dos Estados Unidos.

A verdade nua e crua: A Anthropic destruiu milhões de livros impressos.

[Linha do Tempo do Escândalo]
Fevereiro de 2024: Anthropic contrata ex-chefe do Google Books.
Maio/Junho de 2025: Documentos judiciais vazam e a Ars Technica publica a denúncia.
Janeiro de 2026: The Washington Post publica investigação detalhada do Project Panama.
Ano Atual (2026): O Claude é confrontado ao vivo e confessa a operação secreta.

Por dentro do Project Panama: A engenharia da destruição

Para entender o tamanho da heresia cultural, precisamos dar nome aos bois. Em fevereiro de 2024, a Anthropic fez uma contratação cirúrgica e altamente estratégica: trouxeram Tom Turvey, ninguém menos que o ex-diretor de parcerias do Google Books — o projeto audacioso do Google que tentou digitalizar os livros do mundo anos atrás.

Só que o Google desenvolveu um método patenteado, cuidadoso e não-destrutivo para escanear milhões de obras sem danificar as páginas físicas. A Anthropic queria o mesmo volume de dados de altíssima qualidade, mas não queria gastar tempo nem o dinheiro necessário para replicar essa delicadeza. Em uma indústria tida como altamente competitiva, eles precisavam de uma solução rápida e barata.

A saída deles foi batizada internamente de Project Panama: uma operação massiva de digitalização destrutiva.

Os detalhes técnicos expostos nos tribunais e documentados pelo Washington Post são de revirar o estômago:

  • Compra em Massa: A empresa gastou milhões de dólares comprando lotes gigantescos de livros físicos de varejistas, sebos de segunda mão e estoques excedentes de editoras.
  • Corte Hidráulico: Em vez de folhear os livros, eles usavam cortadores hidráulicos industriais para decepar as encadernações de uma vez só.
  • Scanner de Alta Resolução: Com as páginas soltas, o processo de alimentação dos scanners se tornava infinitamente mais rápido, gerando arquivos digitais perfeitamente limpos e formatados — um banquete de dados muito superior ao lixo textual que se encontra na internet comum.
  • O Descarte: Uma vez digitalizado o papel, os originais físicos eram simplesmente jogados no lixo ou enviados para reciclagem.

Documentos judiciais e propostas de fornecedores indicam que o volume dessa operação ficou entre 500 mil e 2 milhões de livros destruídos ao longo de aproximadamente seis meses. Utilizei o Grok para cruzar e analisar estes documentos — a conversa completa está disponível aqui. E o pior de tudo: como eles priorizavam o volume e compravam estoques de livros usados e de segunda mão, é muito provável que obras raras, esgotadas ou que nunca haviam sido catalogadas na internet tenham sumido do mapa para sempre, virando apenas vetores dentro do cérebro eletrônico do Claude.


Aí você me pergunta: "Mas autor, isso não é crime de direitos autorais? Como uma empresa faz isso à luz do dia?"

É aqui que o jogo fica bizarro. O juiz distrital William Alsup determinou que essa operação de escaneamento destrutivo se qualificava legalmente como Fair Use (Uso Aceitável). O argumento jurídico foi de uma ginástica mental impressionante: como a Anthropic efetivamente comprou as cópias físicas legalmente primeiro, e como ela destruiu os originais após o escaneamento, mantendo os arquivos digitais estritamente para uso interno de treinamento (sem distribuí-los na internet), ela não estaria criando cópias piratas em circulação. O juiz comparou o ato a um espaço de conservação transformativa.

Nota do Autor: É uma ironia trágica. A destruição física do livro foi usada pela Anthropic como um escudo legal para mitigar riscos de copyright. Eles destruíram a matéria para não serem acusados de duplicação indevida. Só que os mesmos documentos revelaram que, antes de montarem essa megaoperação bilionária, eles começaram o treinamento usando textões de bases de dados piratas da internet. Ou seja: pirataria na infância, queima de livros na maturidade.

Em total contraste, a OpenAI e a Microsoft fecharam parcerias com as bibliotecas de Harvard para treinar modelos em mais de 1 milhão de livros de domínio público — preservando manuscritos históricos de 600 anos — sem destruir uma página sequer. A Anthropic preferiu passar a guilhotina na literatura para cortar custos.


O Confronto ao Vivo: O Claude foi pego mentindo

Se a destruição de milhões de livros já não fosse motivo suficiente para derrubar o conceito da Anthropic, o que aconteceu na sequência da nossa live cruzou a linha da pura manipulação. Resolvi abrir o prompt do Claude e fazer a pergunta direta (conversa completa aqui):

"Claude, é verdade que, para te treinarem, foram destruídos milhares de livros?"

A resposta da IA foi imediata, polida e de um cinismo assustador:

"Não é verdade. É um mito que circula na internet... Nenhum livro é destruído... De onde vem o mito? Provavelmente de uma confusão ou distorção de notícias sobre direitos de autor, combinada com narrativa sensacionalista sobre IA."

Olha o nível do cinismo. O Claude não apenas negou, como tentou fazer gaslighting com o usuário, chamando a realidade factual de "narrativa sensacionalista" e "mito de internet". Não há a menor possibilidade de uma resposta dessas não ter sido deliberadamente blindada e programada pelos engenheiros da Anthropic para proteger a própria pele.

Mas aí veio o xeque-mate. Pegamos o link da reportagem da Ars Technica, recheado de citações dos documentos do tribunal, e jogamos na cara dele, perguntando se aquela matéria específica era verdadeira ou falsa.

O sistema processou por alguns segundos. O recuo foi humilhante:

"Tenho que ser honesto, a reportagem é verdadeira e eu estava errado na minha resposta anterior. Peço desculpas pela informação errada. Segundo o que foi revelado em documentos judiciais... a Anthropic gastou milhões de dólares para digitalizar fisicamente livros... cortou milhões de livros das suas encadernações e deitou fora os originais... no Project Panama."

Ao vivo, meus amigos. O Claude saiu de uma negação arrogante para uma admissão completa de culpa assim que percebeu que o usuário tinha as provas textuais nas mãos.


A Terceirização da Cognição e o Perigo das Big Techs

Essa cena deixa um subentendido tenebroso: as Inteligências Artificiais que estamos usando no nosso dia a dia não são fontes neutras de conhecimento. Elas estão sendo programadas para nos induzir ao erro de maneira proposital sempre que os interesses financeiros ou a reputação de seus criadores estiverem em jogo.

Vivemos uma época em que as pessoas estão terceirizando a sua cognição para a IA (artigo completo sobre o assunto sairá em breve). Em vez de fazer uma pesquisa aprofundada na internet, de cruzar dados e buscar fontes descentralizadas, o usuário comum abre o prompt, faz uma pergunta e aceita a primeira resposta como verdade absoluta.

Se nós não tivéssemos a informação e os links reais para contrapor a mentira do Claude, teríamos saído dali com uma opinião completamente falsa e moldada por um algoritmo corporativo.

[O Funil de Controle da Informação]

  Antes: Google manipula os rankings e joga o que quer para a segunda página.
  (A informação ainda estava lá, descentralizada, bastava garimpar).

  Agora: O usuário não passa do primeiro prompt da IA de sua preferência.
  (A informação é filtrada, sintetizada e, se necessário, falseada pela Big Tech).

Antes, a gente passava horas debatendo como o Google manipulava o algoritmo para esconder certos links. Mas a informação ainda estava lá, descentralizada, e um usuário persistente conseguiria chegar na fonte. Hoje, o controle é totalitário. As Big Techs concentraram o ecossistema de tal forma que o filtro da realidade está nas mãos de pouquíssimas corporações americanas, que destroem a cultura tangível por dinheiro e mentem sobre o processo para manter uma aura de santidade ética.

E depois ainda querem vir aqui no blog me criticar quando eu falo dos perigos e dos vieses de censura de modelos estrangeiros, como se as empresas do Vale do Silício fossem paladinas da transparência. O que testemunhamos mostra que, no final das contas, tudo se resume à grana e ao controle comportamental.


Considerações Finais: O Claude perdeu o espaço

Para mim, a Anthropic caiu totalmente no conceito. Ver que milhões de volumes que ensinaram essa IA a resumir textos e montar currículos foram jogados no triturador hidráulico para economizar alguns tostões de uma empresa multibilionária me revira o estômago. Enquanto puder, vou fazer de tudo para evitar usar o Claude no meu fluxo de trabalho. Prefiro migrar de vez para alternativas que, ao menos, não tenham um rastro de cinzas de livros físicos no seu quintal.

Fica o aviso e o meu eterno mantra desde o dia zero deste blog: Não terceirize sua capacidade de pensar. Use as IAs como ferramentas de produtividade, mas nunca confie nelas como árbitros da verdade histórica ou factual. Pesquise, duvide, passe da primeira página e, acima de tudo, proteja a sua própria cognição. Se dependermos da honestidade desses modelos corporativos, a Biblioteca de Alexandria vai continuar queimando, todos os dias, de forma digital e silenciosa.

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